terça-feira, 11 de junho de 2013


" Eu é que fiz isto" ( 1 Reis 12:24)


As decepções da vida não são, na realidade, outra coisa além de decretos do amor. " Hoje tenho algo a ensinar-te", diz o Senhor a cada um dos seus remidos que estejam em aflição. " Dir-te-ei suavemente ao ouvido para que as tempestades que te podem sobrevir não te atemorizem , e para que os espinhos sobre os quais tens de andar te façam menos dano. É uma frase curta, mas deixa que ela se introduza até ao mais profundo do teu coração, para que te sirva de almofada para a tua cabeça cansada.

" Eu é que fiz isto"

" Já pensaste alguma vez que tudo o que te importa a ti me importa também?" . Aquele que tocar em vós toca na menina do seu olho" ( Zacarias 2:8).
" Enquanto foste precioso aos meus olhos, também foste glorificado, e eu te amei" ( Isaías 4:3-4). Por isso me dá tanto gosto formar-te. Quando a tentação te ataca, e o inimigo se aproxima de ti, …" como torrente impetuosa" ( Isaías 59:19), quero manifestar-te que " Eu é que fiz isto". Eu dirijo todas as circunstancias. Não é por casualidade que estás no lugar onde te encontras, mas sim porque Eu o escolhi para ti ".
" Não tens conseguido ser humilde? Eu mesmo te pus na escola onde aprendeste essa lição. Por meio do que te rodeia e das pessoas que te acompanham a minha vontade há de realizar-se em ti. Tens problemas materiais ? Parece difícil viver com o que tens? " Eu é que fiz isto" , porque Sou quem tudo possui. Queria que o recebesses de Mim e que dependesses inteiramente de Mim. " Deus , segundo as suas riquezas, suprirá todas as suas necessidades em glória, por Cristo Jesus" ( Fil. 4:19). Põe a prova minhas promessas, e que se não possa dizer de ti o que foi dito de Israel, no deserto: " Mas nem por isso crestes no Senhor vosso Deus".

Passas noites de aflição ? " Eu é que fiz isto". Eu, que fui " homem de dores, e experimentado nos trabalhos" ( Isa. 53:3), deixei-te sem apoio humano, para que vindo a mim, conheças a "eterna consolação" ( 2 Tess. 2:16-17). Decepcionou-te um amigo a quem costumava revelar o teu coração? " Eu é que fiz isto" . Permiti essa decepção para que aprendas que Jesus é o teu melhor amigo. É Ele quem te guarda, para que não caias; é Ele quem sustém a tua alma nas suas lutas. Ele é o teu escudo, a tua vitória. Ele quer ser o teu confidente, o teu pastor e o teu guia.

Alguém te caluniou? Deixa que eu me ocupo disso, e vem se refugiar `a sombra das minhas asas. Ocultá-los-ás em um pavilhão da contenda das línguas ( Salmo 31:20). Farei manifestar " a tua justiça como a luz, e o teu juízo como o meio-dia " ( Salmo 37:6). Transtornaram-se os teus projetos? Estás decaído e cansado? " Eu é que fiz isto" Tens feito planos, e tens vindo pedir-me que os abençoe, enquanto eu queria prepará-los para ti e tomar a responsabilidade eu mesmo, " porque este negócio é muito difícil pata ti; tu, só, não podes fazer" ( Ex.18:18)
Não és mais do que um instrumento; não és Aquele que o utiliza". " Desejavas ardentemente fazer algo de importante para Mim, e, em vez de realizares o teu desejo, te vês impotente em um leito de dor? " Eu é que fiz isto" Enquanto te encontravas em grande atividade seria útil chamar a tua atenção . Agora quero ensinar-te algumas das minhas lições mais profundas. Somente os que tem aprendido a esperar com paciência é que podem servir-me. Os meus obreiros mais eficazes são, não raro, aqueles, que se veem obrigados a deixar um serviço ativo, para aprenderem manejar a arma da oração. Vês-te chamado , de repente, a ocupar um posto difícil e de grande responsabilidade? Segue em frente, contando comigo. Se te confio este posto importante é para te fazer compreender a verdade da minha palavra. " Por esta causa te abençoará o Senhor, teu Deus, em toda a sua obra, e em tudo em que puseres a tua mão" ( Deut. 15:10).
" Hoje ponho em tuas mãos um punhado de farinha, e um pouco de azeite" (1 Reis17:12) para que os utilizes sem temor. Que todas as circunstancias que se apresentem no teu caminho, que toda a palavra ingrata que tiveres ouvido, que cada interrupção que debilita a tua paciência, e que toda a manifestação da tua própria fraqueza te encontrem bem provido destes recursos divinos. Ve que todas estas provas fazem parte da educação do Pai. As feridas que causam curar-se-ão mais rapidamente, se aprenderes a ver-me, a mim, em todas as coisas. Porque " por estas disposições tuas vivem os homens, e inteiramente delas depende o meu espírito" ( Isa. 38:16).
" Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas, e os joelhos desconjuntados. E fazei veredas direitas para os vossos pés, para que o que manqueja se não desvie inteiramente, antes seja curado. Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor" ( Heb. 12:12-14).
" Aplicai o vosso coração a todas as palavras que hoje testifico entre vós" ( Deut. 32:46).


 Filemom

                   Essa epístola não exige muitas explicações. É a expressão do amor que atua pelo Espírito Santo, no interior da Igreja de Deus,
                      em todas as circunstancias da vida individual.
                      Escrita para despertar em Filemom sentimentos que as circunstancias poderiam abafar no seu coração, essa epístola é mais própria para produzir esses                
                      sentimentos no leitor do que para ser objeto de uma explicação.
                      É um belo quadro da maneira como a ternura e a força do amor de Deus, operando no coração, se ocupam de todos os pormenores em que este amor 
                      pode ser ferido ou pode servir de ocasião para fazer crescer o amor e torná-lo ativo. Sob esse ponto de vista, a epístola a Filemom é tão importante como 
                      bela, porque este desenvolvimento de ternos e delicados cuidados, no meio dos gigantescos trabalhos do apóstolo e das imensas verdades que formam
                      as bases das relações de todas as criaturas com Deus em Cristo, dá um caráter muito especial ao Cristianismo e mostra a sua origem divina; porque Aque-
                      le que revela as verdades mais profundas as coordena no conjunto dos pensamentos divinos o faz como falando de uma coisa conhecida, como comuni-
                      cando-lhes os Seus próprios pensamentos. Espírito do Deus de amor, Ele pode encher o coração das considerações que só o amor pode sugerir, com uma
                      dignidade que revela a sua origem e com uma delicadeza que mostra que seja qual for a grandeza dos Seus pensamentos, Ele pode pensar livremente em
                      tudo.
                      Quando o espírito humano se ocupa de assuntos elevados, fica sobrecarregado e curva-se sob o peso de tal fardo; fica absorvido. É-lhe então necessário 
                      isolar-se a fim de se poder aplicar a esses assuntos. Mas Deus revela os Seus próprios pensamentos, e , por muito vastos que eles sejam para o espírito 
                      humano, correm sempre com a clareza e a coerência que lhes é próprio nas comunicações que ele faz por intermédio dos instrumentos que escolheu. Es-
                      tes são livres de amar, por que o Deus que os emprega e lhes comunica o que eles ensinam é Amor. A manifestação desse amor é a parte mais essencial
                      da tarefa que lhes é confiada, mesmo ainda mais do que falar das coisas profundas. Assim, quando os cervos de Deus são movidos por esse amor, o cará-
                      ter de Quem os envia é demonstrado como sendo o de Deus, que é a origem do amor, em perfeita consideração pelos outros e na atenção mais delicada
                      pelas coisas a que o coração pode ser sensível.
                      
                      De resto, esse amor desenvolve-se nas relações formadas entre os membros do Corpo de Cristo pelo próprio Espírito Santo, quer dizer entre os homens.
                      Jorrando de uma fonte divina e sempre alimentadas por ela, as afeições cristãs revestem a forma das considerações humanas que, mostrando o amor
                      e o oposto do egoísmo, trazem a marca da sua origem. O amor, liberto do eu, pode pensar e pensa em tudo o que concerne aos outros e compreende 
                      aquilo que mais os impressiona.

                      Onésimo, escravo fugitivo, tinha sido convertido por intermédio de Paulo, que o tinha gerado nas suas prisões. Filemom, homem rico, ou, pelo menos, 
                      vivendo bem, recebia a assembléia em sua casa. A sua mulher também era convertida, e ele próprio trabalhava, segundo as suas capacidades, na obra
                      do Senhor. Arquipo era um obreiro do Senhor e atuava na assembléia talvez como evangelista. Em qualquer caso, tomava parte nos combates do Evan-
                      gelho e encontrava-se em relação com Filemom e com a assembléia.

                      O apóstolo, ao enviar Onésimo ao seu amo, dirige-se a toda a assembléia. Esta é a razão pela qual, na sua saudação, ele diz somente: " Graça e paz", 
                      sem acrescentar " misericórdia" , como fazem os apóstolos, quando se dirigem simplesmente a indivíduos. O seu apelo em favor de Onésimo é dirigido a 
                      Filemom; mas toda a assembléia deve se interessar por esse querido escravo, feito agora filho de Deus. Os corações dos outros cristãos eram como que 
                      um apoio - e uma garantia para o procedimento de Filemom, embora o apóstolo espere perdão e bondade para Onésimo, como frutos do amor do próprio 
                      Filemom, na sua qualidade de servo de Deus.

                      Paulo reconhece - como era seu hábito - todo o bem que existe em Filemom, e colhe nesse bem bons motivos para o próprio Filemom, a fim de que ele
                      dê pleno curso ao sentimento da graça, apesar de tudo o que o regresso de Onésimo pudesse produzir na sua carne, ou do azedume que Satanás 
                      pudesse despertar nela. Paulo quer que aquilo que ele deseja para Onésimo seja ato do próprio Filemom. A libertação do antigo escravo ou mesmo a sua 
                      alegre recepção como irmão na fé teria, neste caso, um alcance muito diferente do que teria se esse acolhimento fosse fundado sobre uma ordem do 
                      apóstolo, porque se trata de afeição cristãs e dos laços do amor. O apóstolo faz valer o direito que tinha de comandar; somente com o fim de por de lado
                      esse direito e de dar mais força ao seu pedido, sugerindo ao mesmo tempo que a comunhão da fé de Filemom com toda a igreja e com o apóstolo, quer 
                      dizer, a maneira como a fé de Filemom se ligava na atividade da afeição cristã `a Igreja de Deus, assim como `aqueles que, da sua parte, ali trabalhavam,
                      e ao próprio Senhor ( espírito que se mostrava já tão honrosamente em Filemom) , tenha o seu pleno desenvolvimento, reconhecendo todos os direitos
                      do apóstolo sobre o seu coração.

                      É lindo ver a afeição do apóstolo por Onésimo mostrar-se numa ansiedade que lhe faz esgotar todos os motivos capazes de atuarem sobre o coração de
                      Filemom, e , junto a essa afeição, o sentimento cristão que inspirava igualmente a Paulo uma plena confiança nos bons afetos desse fiel e excelente irmão.
                      O coração natural de Filemom bem teria podido sentir algum ressentimento por ocasião do regresso dos seu escravo fugitivo, por isso o apóstolo intervém,
                      por meio de sua carta, em favor do seu querido filho na fé, gerado no tempo do seu cativeiro. Deus tinha intervido, pela obra da Sua graça, que devia 
                      atuar no coração de Filemom para produzir uma relação inteiramente nova entre ele e Onésimo.  O apóstolo exorta Filemom a receber o seu antigo escra-
                      vo como irmão; mas é evidente ( verso 12) que Paulo, embora quisesse que o amo, ao qual Onésimo tinha prejudicado, atuasse por sua livre vontade,
                      confiava que ele o libertaria ( verso 21).  E , embora assim seja, o apóstolo quer tomar sobre si todos os danos, por amor do seu querido filho. De acordo
                      com a graça, Onésimo era agora mais útil, quer a Filemom quer a Paulo, do que outrora, quando a carne o tinha tornado um servo infiel e inútil. Filemom
                      devia ficar satisfeito com por isso ( verso 11). O apóstolo alude aqui ao nome de " Onésimo" que significa " útil ". Enfim , recorda Filemom que lhe era 
                      devedor a ele, Paulo, da sua própria salvação, da sua vida como cristão.

                      Paulo era, nesse momento, prisioneiro em Roma. Deus tinha conduzido Onésimo a essa cidade, aonde todos afluíam, para o levar há salvação e ao 
                      conhecimento do Senhor, para que nós fossemos instruídos, e para que Onésimo tivesse na Igreja Cristã uma nova posição. Isto deu-se, ao que parece,
                      no fim do aprisionamento do apóstolo. Pelo menos Paulo espera ser libertado, e diz a Filemom que lhe prepare também pousada. 

                      Os nomes que encontramos aqui também se encontram na Epístola aos Colossenses. Nesta, o apóstolo diz: " Onésimo … que é dos vossos" ( Col 4:9),
                      de sorte que, se aquele de que se trata aqui é o mesmo, ele era de Colossos. Parece provável que assim seja, porque também encontramos nessa mesma
                      epístola Arquipo, que é exortado a ter cuidado com seu serviço ( Col 4:17). Se assim é, o fato de Paulo falar aqui desta maneira de Onésimo aos cristãos 
                      de Colossos é ainda uma prova dos seus cuidados de amor por esse novo convertido. Coloca-o assim no coração da assembléia, enviando a sua carta por
                      ele e por Tíquico. Na epístola aos Efésios não há saudação, mas foi levada pelo mesmo Tíquico. Timóteo esta junto de Paulo no momento de este endere-
                      çar a sua Epístola aos Colossenses, como na enviada a Filemom; mas não está na que foi enviada aos Efésios nem na enviada aos FIlepenses aos 
                      quais o apóstolo esperava enviá-lo em breve. Os dois nomes encontram-se de novo reunidos.

                      Não tiro conclusões aqui desses últimos pormenores, mas o seu estudo não seria falho de interesse. As quatro epístolas que acabo de falar foram escritas
                      durante o cativeiro do apóstolo em Roma, num momento em que ele esperava ser libertado dessa prisão.

                      Finalmente, o que temos de especial a notar na Epístola a Filemom é o amor que, no centro íntimo desse círculo, tudo há volta garantido por um desenvol-
                      vimento de doutrina sem paralelo, reina e frutifica, e une num conjunto os membros de Cristo, derramando o sabor da graça sobre todas as relações em 
                      que os homens se encontram uns com os outros, ocupando-se de todos os pormenores da vida com uma perfeita conveniência e tendo em consideração
                      todos os direitos que possam existir entre os homens, e tudo o que o coração humano possa sentir.       ( JND)